segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Escondido atrás da porta ou Como morrer afogado, se a lama não chega ao joelho?


Na época em que minha irmã casou, eu tinha quinze anos. O sentimento de perdê-la para outro homem me fez prometer que jamais iria aderir ao matrimônio. Continuo com a mesma ideia, hoje assegurada por outros motivos. Aos quinze anos tinha algo que pouco conhecia: o amor, e os amargos do amor. Ambos tão fortes e indiscutivelmente ligados, como a mãe ao feto. Este, o amor, eu também não apreciava, até o dia fatídico que ocasionalmente o encontrei. E digo fatídico, não apenas por ter o sido, mas porque fatídico soa tão bem ao se contar uma estória. E todas elas, as minhas estórias, possuem citações dessa palavra tão expressiva de si. Fa - tí - di - co, é como lâmina afiada cortando cebola saturada de água, um único golpe e se tem o que deseja. É aquilo que se diz, e acabou. Mas continuando... naquele dia fatídico, cito aquele, o primeiro, pois foi onde tudo se iniciara e nada de trágico aconteceu pois exatamente àquele dia, nem mesmo nas semanas ou dois meses seguintes. Mas após, durara tanto e parecia uma extensão, sim uma extensão daquele dia. Culpando, eu, ele. Serei dramático, cafona, usarei termos, frases inteiras de mau-gosto, breguisses que duvidara ter-mo permitido. E direi que assustais, sim. Não teria coragem de pedir-te o contrário. Preferia que meu coração permanecesse na gelidez de antes e não tivesse sido acariciado por mãos tão ternas e perversas. Mãos más, disfarçadas de algodão. E o que será o amor, se não o atrito? Primeiro o atrito das vontades que de tanto desejarem faz friccionar mãos, lábios, depois corpos inteiros, deixando-os sucessivamente com temperaturas elevadas. Um dos sintomas do amor, certamente, é a fumaça, e esta ninguém esconde: onde há fumaça, há fricção, e ... Relembrei a esse tempo que do homem a covardia é uma astúcia e atritar-se a alguém, como nas leis físicas, causa consequências. Eu, rubro, quente do atrito já não pensava nessas superficialidades. Queria aquecer ao ponto de fundir-me ao outro? Perguntas, para que servem se não para perguntar? O outro corpo, parecia-me frio, como exposto aos passantes, dias, no saguão de um aeroporto, quando, eu, buscava um quarto de hotel, mesmo barato. Minhas buscas me encaminharam por locais tão quentes e tão áridos, que achei estar no inferno.

Só.

E estar sozinho, em qualquer lugar, não é tão interessante. Creio ser esse um dos motivos não ter me habituado ao inferno. É impossível habituar-se a solidão depois de dois quase ser um. Não, não... eu avisei do mau-gosto. Perdoe-me. Crês que houve dias tão insossos que cogitei consultar a auto-ajuda? Será que tô sendo franco demasiadamente? deveria ter medo do seu julgamento, mas me da tua mão, quente, e confidenciarei tudo. Começarei pelos cheiros. E te imploro não falais disso a ninguém. Os cheiros!! ah! um dia eles ainda me matam. Devo ser anormal e 95% do meu cérebro corresponder a áreas de memória olfativa. Os aromas me fazem recordar detalhes tão minuciosos, sentimentos tão refinados e estritos, produzindo uma onda de incompreensão vagante pelos outros quatro sentidos, quedando-me ofegante de desejos indizíveis. Os cheiros! ah os cheiros! Sem querer me desfazer, definitivamente, dos meus objetos por ele tocado, joguei-os todos numa sacola das americanas e esta dentro de outra e a pus no fundo daquela gaveta que menos usava. Junto a esses artefatos estava o livro do húngaro, Zosé Costa que havia me presenteado com uma dedicatória escrita a caneta preta. Ainda hoje estão lá. Com medo, mal me aproximo da gaveta, que sinistra me olha, parecendo túrgida de cheiros, disposta a explodir nas minha narinas lembranças tão vivas, mas pungentes, por serem agora, tão somente, lembranças, guardadas em uma gaveta. Por enquanto deixa-a bem fechada, quiçá um dia numa tarde de sábado com céu limpo, quando outros perfumes povoarem minhas lembranças, me lançarei sobre ela e talvez só baratas e lagartixas pálidas brotarão de seu interior. Não falarei dos bons momentos, eles foram bons demais para serem simplificados com palavras. Minto, ó mão tão quente que me acompanha. Não vos contarei por que dessa forma não seria impelido a trazer ao consciente quadros da memória que farão reviver o que não pode ser mais vivido. Deixa assim... um dia quem sabe! Hein?! Falarei apenas que foi, se não, quase dois meses. E ao final destes, antes mesmo de tudo acabar, comecei a estranhar-me os humores, e estando perto ou longe dele o rigor do aperto no peito não se alterava. Era a previsão do fim? Sendo ou não, ele chegou, nefasto, numa tarde seca na minha caixa de e-mails. Naqueles momentos seguintes provei do amargo-morno, do impalatável, onde tudo que existe gera ânsia de vômito, mas trava a garganta, como se o mundo todo contesse no meu estômago, e um mundo todo vivo tem a força de um inferno. Naquele funesto espaço de tempo sentir o olhar seco, e mirar o que quer que fosse me doía, como se minhas oculares ressecadas esfregassem em superfícies ásperas. Dias inteiros sem nenhum gosto seguiram-se a este. Até o dia, sem se conhecer o motivo, em um átimo, tudo estava resolvido. E ouvi as quatro letras de seu nome soava como uma lembrança boa, como uma lembrança de um amor de meu tempo colegial. Por onde andará seu pensamento já não me era uma necessidade saber, desejava talvez que voasse por onde lhe coubesse mas folgadamente. A gaveta continua fechada, já não a olho tão temeroso, mas é que provar de lembranças pelos cheiros trás consequências terrivelmente incontroláveis.
Muitos dirão que não foi amor. Não me importa. O que é o amor senão a vontade de dividir? Os egoístas jamais conseguirão chegar ao amor. A vaidade lhes consomem, e em tudo que veem só conseguem enxergar a sua auto-imagem reverberando uma beleza que aumenta a cada piscar de olhos, sejam eles grandes ou apertados. Os egoístas levam a vida mais rasa que pode haver. E quando se relacionam com outros é a si que buscam. Raramente existe ventura solitária, assim como não existe desgraça na solidão. Solidão. Odeio essas frases tendenciosas do senso comum, mas na atualidade, apesar de ser obrigado a conviver mais com outras pessoas, cada vez que enfrenta a realidade autêntica de sua vida, o homem contemporâneo sente, imediatamente a solidão. E as clássicas histórias de amor são um misto de venturas e desgraças, onde o amor existe de forma recíproca, mas infeliz. O que não foi o meu caso, nem é o da maioria dos mortais. Temos duas penas: além de infeliz, não há reciprocidade.
De início, tentei esquecer, evitar o que quer que fosse que o lembrasse. Quase tudo me encaminhava a ele: cheiros, músicas, pessoas, lugares, livros, situações. Dizem que quando desejamos sofrer na solidão, estamos fugindo da realidade, esquivando-nos do sofrimento... mas ele só aumentava. Decidi falar, não com ele, claro, mas com outros, de início foi até mais difícil, pronunciar aquele nome àquela circunstância era a desgraça maior da minha vida. Afirmam também que ao buscar o consolo dos outros desejamos sofrer com eles. Não sei se assim o foi, mas passou. Ainda o evito, não é fácil estar cercado pelo desejado-inrecíproco. E tudo de forma branda está se atenuando.
Quando passo a noite na rua, sob as luzes escuras dos postes eriçados apontando o céu, e a cabeça insiste em reviver momentos que já não valem a pena, faço brotar dos bueiros companhias de teatros, inteiras, e juntos dançamos La Valse D'amelie, celebrando o prazer das vidas atritadas e dispostas a dividir, mesmo estando cercados de “coisas” rasas, frias e inteiras, adornadas de etiquetas, exibindo vaidades. Em uma dessas festas noturnas, sempre após as 23 horas uma personagem de Navarro que voava pelas imediações me confidenciou, vislumbrada: na vida, meu caro, não há felicidade, existem apenas momentos felizes.

Pois que se faça o mais breve possível o intervalo entre esses momentos.



Ó, não!! … e será que foi apenas orgulho?!!









"(...) por que escrever, é como jogar pedras no lago."


Inspirado, INTUITIVAMENTE, em Prenez soin de vous, de Sophie Calle. A Srª. Poulain, José Ribamar Coelho Santos, Osvaldo Lenine Macedo Pimentel, Dante Moreira Leite, Arnaldo Augusto Nora Antunes, Miguel Arraes de Alencar Filho, clarice e aos Rs por vir.



4 comentários:

Rafiki disse...

Gostei de me perder aí.

Anônimo disse...

O grande problema do ser romântico é o sofrimento póstumo...ou não.

Anônimo disse...

Sim, foi apenas orgulho!

ramon sena disse...

mas é que provar de lembranças pelos cheiros trás consequências terrivelmente incontroláveis.