quinta-feira, 4 de março de 2010

Primeiro de abril - Abá e Aurora - União sexual de amor transferido ou acocorado numa rampa ridícula

Juvenal me explicava o tal do tronco, uma espécie de pedestal onde eu deveria apoiar as dianteiras na hora do coito. Uma cópula mais científica, explicava Juvenal. Mas quando vi entrar Aurora, pisquei vi entrar, pisquei vi entrar, pisquei vi Aurora, me belisquei e achei que era o dia da mentira. Nem justifiquei a minha posição, minha solenidade, meu pedestal. Quando vi aquela mulher que era uma catedral, mergulhei de cabeça em sua vagina gótica. Amei-a e amassei-a feito um condenado, sendo ela a minha viúva. Dobrei e desdobrei Aurora em sessenta e quatro poses diferentes. Perdi a conta das pernas que tínhamos, quantas línguas, quantos delírios, quantas vezes morremos e que hora são. Nem vi por que porta ela saiu e entraram outras e mais outras que eu adorei devotando as colunas de Aurora, no que se chama união sexual de amor transferido.
Até que enfim Abá, empatado numa rampa de tábuas que eu nunca vi. O ardor do momento não me deu tempo de criticar a posição. Invenção de Juvenal, diz que para aliviar o peso de Abá em cima de mim, Juvenal é muito ponderado. Só desconhece o prazer que é padecer aquelas arrobas no dorso. Não calcula quanto eu desejava ser tão bem mal tratada de novo, na roça sem programação, sem rampa, sem vergonha. De novo. Me machuca filho, me dói, seu desgraçado, me xinga a sua rampeira. Como naquele tempo, anjo, que você me enganava com aquelas vacas, eu sei. Acabava voltando, o tarado, com as unhas enormes na mão direita que você não aprende a cortar. Eu lavava as cuecas dele, as porcas lembranças. Cochicho e muxoxo no muzungo, muxinga no meu lombo e cafezinho na cama da sua mucama sim feitor. Mas no átimo do clímax do bom mesmo, não se sabe se é você ou eu que está por cima ou por baixo, nesse cosmo descoordenado, láctea nuvem, de novo, faz, me judia, coração. Vê, vem, abre a porta do meu quarto e anda desta parede à outra, sendo que quando atinge a outra já ainda está grudado nessa parede, me ocupando o quarto inteiro quase a me expulsar de mim. Me estufa o quarto e geme, ou fui eu quem soluçou, não importa quem chorou primeiro se nós derretemos juntos. Acorda. Não, meu, seu. Devagar, cresce outra vez dentro de mim e fica enganchado dum jeito que parece que agente já nasceu assim e que senão estou amputada e com frio e já nem sei, assim sim, mim, sim, . . . , . . . , . . . , . . , . . , . , . , . , . , . , . , , , ,, ,, ,,, ,,,,, ..... ....!;!;!!;!!!;!!;!!!;;!?!;?;!;.;,.;,.;,.;;,. . , . ,, . , . , . , . . , . , . . , . . . , . . . , . . . , sim, assim, assim sim, assim não, já nem sei o que estava falando, estava tonta, estava querendo respirar, estava perdendo a pontuação, meu bem. Fiquei mais um pouco, meu fôlego. Não me abandone assim de repente. Me esquete. Me beije. Me. Deixo Abá transversal, acocorado numa rampa ridícula a que o cretino se presta.



Chico Buarque – Fazenda Modelo: novela pecuária. “Um livro que diverte, irrita, inspira e consola”.

2 comentários:

Fabrício disse...

... é um tratado sujo / desconexo sobre a promiscuidade... sendo ainda sutil.


abs;
Fabrício

Graziele disse...

Celo, fiquei TOTALMENTE sem fôlego...
vai do imoral pro real e o real se torna totalmente normal ,real...sexo puro e sem dor de cbça!
adoro esse homem...Chico é o cara e vc tá indo no caminho certo!
kkkkkkkkk
um bjo
adorei!!!!